“Obsessão” assusta, mas enxerga pouco

obsessão

Obsessão romântica — ou de qualquer tipo — raramente termina bem. Quando uma pessoa se torna obcecada por outra, esse sentimento pode alimentar comportamentos cada vez mais extremos até que o controle se perca por completo. O diretor Curry Barker usa essa premissa como ponto central do seu filme e, por se tratar de um horror, só reforça que as coisas caminharão para lugares muito piores do que qualquer um poderia imaginar quando a história começa.

Em Obsessão — fenômeno de bilheteria em 2026 —, Bear (Michael Johnston) é um adolescente que não parece meter medo em ninguém. Por muito tempo, ele nutre uma paixão praticamente não correspondida por Nikki (Inde Navarrette, a grande revelação do ano) e, justamente por ser tímido, não consegue confessar o que sente nem convidá-la para sair.

Leia também
“Socorro!” reúne suspense e humor no retorno de Sam Raimi

Mais do que enfrentar a própria timidez — e vemos que Bear toma uma série de remédios para lidar com isso e a ansiedade —, o que realmente o paralisa é a incapacidade de lidar com a possibilidade da rejeição. Por isso ele recorre a uma ajuda mística: um objeto chamado Salgueiro do Desejo que, segundo a embalagem, realiza um desejo ao ser partido ao meio. Sem pensar duas vezes, Bear exige que Nikki o ame incondicionalmente, mais do que qualquer outra pessoa.

Mas em vez de se transformar na namorada apaixonada que ele imaginava, Nikki vira uma espécie de alma amaldiçoada — apresentando comportamentos estranhos e violentos, vivendo em um constante estado de transe. É aqui que Navarrette brilha e o horror de Barker salta aos olhos. Não por acaso, o diretor passa a filmá-la envolta em sombras ou escondida nos cantos do quadro, mostrando como sua presença se tornou ameaçadora e imprevisível.

Nesse aspecto, Obsessão funciona bem. Barker constrói um ambiente de tensão crescente e, em alguns momentos, evoca os clássicos do gênero — há cenas que parecem homenagens diretas a O Exorcista, de William Friedkin, na forma como o corpo de Nikki é filmado e na atmosfera que envolve suas aparições.

O problema está em outro lugar.

O filme justifica a trama pela inocência de Bear — um adolescente ingênuo que acreditou em uma magia barata —, mas esquece que existem seres humanos por trás dessa história. E incomoda que um enredo sobre relações tóxicas com consequências desastrosas seja contado exclusivamente pela perspectiva masculina, usando as lentes de Bear para enxergar Nikki não como uma pessoa, mas como um objetivo a ser alcançado.

Obsessão assusta. Cria atmosfera, tem uma revelação forte em Navarrette e sabe quando acionar o desconforto do espectador. Mas ao se recusar a enxergar além do olhar de Bear, o filme limita aquilo que poderia ter dito sobre obsessão, controle e as consequências de tratar outra pessoa como extensão do próprio desejo. O horror está lá. A reflexão, apenas pela metade.

Obsessão (Obsession, 2025)

Obsessão (Obsession, 2025)
3 5 0 1
Direção: Cury Barker • Roteiro: Cury Barker • Elenco: Michael Johnston, Inde Navarrette, Cooper Tomlinson e Megan Lawless. • Disponível: Prime Video ou Apple TV • Duração: 108 minutos
Direção: Cury Barker • Roteiro: Cury Barker • Elenco: Michael Johnston, Inde Navarrette, Cooper Tomlinson e Megan Lawless. • Disponível: Prime Video ou Apple TV • Duração: 108 minutos
3,0 rating
3/5
Total Score

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *