Os movimentos das big techs e dos estúdios em Inteligência Artificial (IA) ganharam novos contornos nos últimos tempos. E eu te ajudo a relembrar: US$ 75 milhões do Google na A24. US$ 1 bilhão da Disney na OpenAI. US$ 600 milhões da Netflix pela startup de Ben Affleck. Em menos de um ano, a relação entre Hollywood e a Inteligência Artificial deixou de ser um debate sobre ferramentas e virou uma disputa por posição. Quando escrevi sobre o tema aqui no blog em novembro, a pergunta era o quanto a IA aparecia nos filmes. Agora a pergunta é outra — quem vai ser dono de quem, se tornando uma clara disputa por controle.
A mudança fica clara quando se olha para os três modelos que se desenharam nos últimos meses.

Três modelos, três apostas
No primeiro deles, a IA se apresenta como ferramenta do artista. É o caminho escolhido pela A24, que fechou em junho deste ano uma parceria de pesquisa com o Google DeepMind.
O acordo tenta seguir alguma cautela — o Google não tem acesso ao catálogo do estúdio, os cineastas mantêm o controle criativo e o primeiro projeto seria algo tão pouco ameaçador quanto um gerador de storyboards ou revisor de roteiros.
Scott Belsky, sócio da A24, disse que as ferramentas não vão se parecer com o tipo de IA de geração por prompt que incomoda tanta gente. Enquanto isso, a Netflix seguiu lógica parecida ao comprar a InterPositive, empresa fundada por Ben Affleck para resolver problemas de pós-produção.
E o quanto essa lógica já está em prática, a própria Netflix revelou. Em carta aos acionistas no fim do segundo trimestre, a plataforma admitiu ter usado fluxos de trabalho com IA generativa em cerca de 300 dos seus títulos em 2026 — mais da metade da sua produção anual de originais, quase toda concentrada na pós-produção. Entre os exemplos citados está “Brasil 70: A Saga do Tri”, minissérie sobre a Copa de 70, que usou a tecnologia para reconstruir a atmosfera visual histórica.
No extremo oposto está a Disney. O estúdio investiu US$ 1 bilhão na OpenAI e liberou mais de 200 personagens — de Mickey Mouse a Darth Vader — para que qualquer usuário do Sora gere vídeos com eles. Aqui a IA não ajuda a fazer o filme. Ela é o produto, entregue diretamente ao público, com as marcas da gigante como matéria-prima.
E entre os dois polos, um terceiro modelo que talvez seja o mais revelador: a Lionsgate se associou à Runway não para apoiar seus artistas, mas para gerar conteúdo. Essa, sim, se torna a primeira ruptura visível nas proteções que os sindicatos conquistaram depois das greves de 2023.
A disputa ganha nome e rosto
Toda essa disputa está ganhando um nome e um rosto: Tilly Norwood, a “atriz” criada pelo estúdio londrino Particle6, vai protagonizar seu primeiro longa. Em Misaligned, anunciado em julho, ela interpreta justamente uma IA sem corpo e sem infância — uma produção híbrida, com diretores, roteiristas e editores tradicionais trabalhando ao lado de especialistas em IA.
A resposta do SAG-AFTRA, sindicato dos atores, virou uma espécie de manifesto. Para a entidade, Norwood passa longe de ser uma atriz humana. Sem qualquer experiência de vida e sem emoções, ela nada mais é do que um produto gerado por um programa, treinado e codificado sim por humanos, mas sem qualquer conexão com o “eu” e a formação de personalidade que carregamos.
Ainda nesse sentido, desde fevereiro, o SAG-AFTRA discute um novo contrato com os estúdios tendo as salvaguardas de IA no centro do debate. Entre as propostas, uma que resume bem o espírito do momento: a “taxa Tilly”, um royalty a ser pago sempre que um intérprete sintético aparecer em uma produção.
Executivos de um lado, artistas do outro
Enquanto isso, os dois lados nessa mesa de discussão não conseguem chegar a um ponto em comum. David Ellison, que em breve pode comandar o maior conglomerado de estúdios da história se a fusão Paramount-Warner se concretizar, aposta que a IA será transformadora para a empresa combinada — uma ferramenta de destravamento criativo, segundo ele.
Do outro lado está Christopher Nolan, hoje presidente do Directors Guild of America e, portanto, a voz dos diretores na negociação contratual em curso com os estúdios. Na semana de lançamento de A Odisseia, ele disse nunca ter visto uma rejeição tão rápida a um salto tecnológico tratado como fundamental.
Para Nolan, a IA generativa chega na hora errada: a geração que os estúdios mais querem conquistar é justamente a que descarta o que ele chama de “AI slop” — o conteúdo genérico produzido em massa pela tecnologia. Como evidência, ele aponta o sucesso de Kane Parsons (Backrooms) e Curry Barker (Obsessão), os diretores saídos do YouTube que dominaram a bilheteria deste ano com filmes originais e realizados como devem ser.
Em novembro, encerrei o texto anterior apostando que, por mais que a tecnologia cresça, o elemento humano seguiria necessário. Oito meses e alguns bilhões de dólares gastos depois, mantenho a aposta — com um adendo. O que vai definir os limites da IA no cinema não serão os contratos entre estúdios e big techs, nem apenas as cláusulas conquistadas pelos sindicatos. Será o público.
Se a audiência continuar rejeitando o que é sintético, artificial e lotando salas para ver o que é real, como faz neste ano, os bilhões de investimentos encontrarão outro caminho.


Deixe um comentário