“Veludo Azul” revela o lado sombrio por trás da normalidade

veludo azul

Veludo Azul, lançado em 1986, é o filme que David Lynch dirige logo após o turbulento processo de produção de Duna. Sem direito ao corte final e obrigado a aceitar diversas interferências do produtor Dino De Laurentiis, Lynch viu aquele projeto escapar de suas mãos. Veludo Azul surge, portanto, quase como uma resposta a essa experiência. Curiosamente, financiado pelo próprio De Laurentiis, o filme devolveu ao diretor a liberdade criativa e ajudou a consolidar a imagem que carregaria pelo resto da carreira: a de um cineasta fascinado pelo estranho que existe sob a superfície do cotidiano.

Ainda assim, Veludo Azul é um filme relativamente acessível dentro da filmografia de Lynch. Comparado a Eraserhead (1977) ou mesmo a O Homem Elefante (1980), a narrativa segue uma estrutura mais próxima de um thriller tradicional. Mas essa sensação dura pouco.

Leia também
“Contatos Imediatos do Terceiro Grau” expõe a reação humana ao desconhecido

Logo na abertura, Lynch apresenta a pacata Lumberton por meio de jardins impecáveis, cercas brancas e ruas tranquilas. Em seguida, um homem sofre um mal súbito enquanto rega o gramado e a câmera mergulha para dentro da terra, revelando insetos se contorcendo sob aquela paisagem perfeita. É uma das imagens mais famosas do diretor e funciona como uma declaração de intenções: Veludo Azul será sobre tudo aquilo que existe escondido sob a aparência de normalidade.

O que existe sob a superfície de Lumberton

É nesse universo que conhecemos Jeffrey Beaumont (Kyle MacLachlan), jovem que retorna à cidade para visitar o pai hospitalizado. Ao encontrar uma orelha humana abandonada em um terreno baldio, ele inicia uma investigação que o aproxima de Sandy (Laura Dern), filha de um detetive local, e o leva até Dorothy Vallens (Isabella Rossellini), cantora de um clube noturno envolvida em circunstâncias cada vez mais perturbadoras.

A partir daí, Veludo Azul assume contornos de noir. Dorothy ocupa o papel da mulher misteriosa, enquanto Jeffrey se transforma em alguém cada vez mais atraído por um mundo que não compreende totalmente. O que começa como curiosidade logo se transforma em obsessão.

É também nesse ponto que o filme encontra sua maior força. Mais do que investigar um crime, Jeffrey passa a descobrir aspectos de si mesmo que permaneciam adormecidos. O apartamento de Dorothy, dominado por tons de azul e vermelho, funciona quase como um espaço paralelo dentro de Lumberton: um lugar onde desejo, violência e fantasia coexistem.

Frank Booth (Dennis Hopper) amplia ainda mais essa sensação. Sua presença imprevisível transforma cada cena em uma ameaça constante e ajuda Lynch a desmontar de vez a imagem idílica construída no início do filme. O que parecia uma cidade tranquila revela gradualmente um ambiente marcado por impulsos reprimidos, obsessões e relações de poder profundamente destrutivas.

É justamente quando abandona a investigação policial e mergulha nesse território mais psicológico que Veludo Azul se torna verdadeiramente fascinante. Jeffrey entra na história tentando descobrir a quem pertence uma orelha encontrada por acaso. Mas termina confrontando algo muito mais desconfortável: a percepção de que o mal não está apenas escondido atrás das cortinas de Lumberton.

Talvez seja por isso que Veludo Azul continue sendo considerado um dos filmes mais importantes de David Lynch. Não apenas porque revela o lado sombrio de uma pequena cidade americana, mas porque mostra como essa escuridão também existe dentro das pessoas que tentam ignorá-la.

Veludo Azul (Blue Velvet, 1986)

Veludo Azul (Blue Velvet, 1986)
4 5 0 1
Direção: David Lynch • Roteiro: David Lynch • Elenco: Kyle MacLachlan, Isabella Rossellini, Dennis Hopper, Laura Dern e Dean Stockwell • Disponível: MUBI • Duração: 120 minutos
Direção: David Lynch • Roteiro: David Lynch • Elenco: Kyle MacLachlan, Isabella Rossellini, Dennis Hopper, Laura Dern e Dean Stockwell • Disponível: MUBI • Duração: 120 minutos
4,0 rating
4/5
Total Score

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *