É curioso como alguns dos melhores filmes de estreia em 2025, que estão chegando agora no Brasil, recorreram às memórias de infância para construir histórias sobre amadurecimento em meio ao caos político. Foi o caso do nigeriano Akinola Davies Jr., em A Sombra do Meu Pai, e também do iraquiano Hasan Hadi, que conquistou a Caméra d’Or em Cannes com o sensível O Bolo do Presidente.
Em ambos, as turbulências sociais e políticas são observadas a partir do olhar infantil. Mas, no caso de Hasan Hadi, há também um componente profundamente pessoal. O diretor resgata o trauma coletivo vivido por milhares de crianças iraquianas no início dos anos 1990, quando o país governado por Saddam Hussein foi submetido a uma série de sanções econômicas que agravaram a pobreza e a corrupção. Mesmo diante desse cenário, as escolas continuavam obrigando seus alunos a preparar um bolo para celebrar o aniversário do presidente.
É com essa premissa que Hadi apresenta Lamia (Baneen Ahmed Nayyef, o coração e a alma do filme), estudante de uma pequena vila agrícola que acaba sendo sorteada para cumprir a ingrata tarefa. O problema é que ela vive com a avó, Bibi, e as duas mal possuem dinheiro para sobreviver. Ao seu lado está também Saaed, seu inseparável amigo e companheiro de aventuras, cuja presença se torna fundamental ao longo da jornada.
Mas viver em um regime autoritário significa, muitas vezes, não ter escolha. Assim, Lamia e Saaed partem para a cidade grande em busca dos ingredientes necessários: ela, para fazer o seu bolo; e ele, para encontrar frutas. O rosto de Saddam Hussein está por toda parte, assim como a presença constante dos militares e dos postos de controle espalhados pelas estradas. Aos poucos, o filme assume até mesmo a forma de um pequeno road movie, no qual os dois encontram personagens que tanto ajudam quanto dificultam a missão.
Traços de humanidade
O que mais impressiona em O Bolo do Presidente, no entanto, é o cuidado humano e sensível com que Hasan Hadi conduz essa história. Mesmo em meio a uma realidade marcada pela escassez, pela repressão e pela violência, o diretor se recusa a transformar seus personagens em símbolos da miséria. Há sofrimento, evidentemente, mas também dignidade, afeto e até momentos de humor. Em certos instantes, o filme parece se aproximar de um conto de fadas, não fosse a dura realidade que insiste em se impor.
Torcemos até o fim para que Lamia e Saaed consigam retornar em segurança para casa e completar uma tarefa que, desde o início, parece impossível. Em alguma medida, eles conseguem. Mas Hasan Hadi deixa claro que o destino daquelas crianças — assim como o de toda uma geração — já está sendo moldado pelas consequências da guerra que se aproxima no horizonte.
E talvez seja justamente aí que esteja a força de O Bolo do Presidente. Mais do que um retrato das marcas deixadas pelas sanções econômicas e pela ditadura de Saddam Hussein, o filme se transforma em uma delicada história sobre amizade, dignidade e a capacidade das crianças de preservar alguma inocência mesmo quando o mundo ao redor insiste em roubá-la. E, quando os créditos finalmente sobem, é difícil segurar as lágrimas.


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