“À Queima Roupa”, o neo-noir de John Boorman que vai além da vingança

à queima roupa

À Queima Roupa praticamente marca a chegada de John Boorman a Hollywood. Embora já tivesse dirigido Catch Us If You Can (1965), é aqui que o cineasta inglês realiza seu primeiro grande filme dentro da indústria americana. Talvez por ainda olhar aquele universo de fora, Boorman constrói um neo-noir que pouco se interessa pelas convenções do gênero — e transforma uma história aparentemente simples em uma experiência visual e psicológica incomum para a época.

Protagonizado por Lee Marvin, o filme usa os códigos clássicos do noir como ponto de partida. À primeira vista, parece uma história de vingança: Walker participa de um assalto na desativada prisão de Alcatraz a convite do seu melhor amigo, mas é traído por ele e pela própria esposa, que o abandonam para morrer.

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Contra todas as probabilidades, Walker sobrevive. De volta às ruas de Los Angeles, passa a perseguir um único objetivo: recuperar os US$ 93 mil que teria direito a receber pelo assalto. A busca o leva por concessionárias, apartamentos, clubes noturnos e escritórios enquanto tenta encontrar o paradeiro do antigo parceiro.

Mas Boorman nunca parece realmente interessado no dinheiro.

Muito além de uma história de vingança

O diretor usa a desorientação de Walker para romper com a narrativa tradicional do gênero. Passado e presente se misturam constantemente: flashbacks surgem sem aviso e as lembranças do protagonista invadem a narrativa como se acompanhássemos alguém incapaz de distinguir memória, imaginação e realidade.

Essa fragmentação também desconstrói a figura clássica do herói noir. Walker questiona diversas vezes se tudo aquilo realmente aconteceu — levantando a possibilidade de que sua jornada seja apenas um sonho, ou o delírio de alguém que jamais deixou Alcatraz. Boorman nunca responde a essa pergunta. E é justamente essa ausência de respostas que torna o filme tão fascinante.

Mas existe outro aspecto que chama ainda mais atenção.

À Queima Roupa é também a história de um homem que perdeu tudo. Quando tenta recuperar aquilo que acredita lhe pertencer, Walker esbarra continuamente em uma entidade conhecida como A Organização. Mais do que um grupo criminoso, ela funciona quase como uma abstração: nunca possui um rosto definitivo, sempre existe alguém acima, outro intermediário, outro escritório, outra porta a ser aberta.

Enquanto Walker percorre Los Angeles, Boorman filma uma cidade dominada por prédios corporativos, corredores frios e espaços impessoais. A Organização torna-se tão fantasmagórica quanto o protagonista — um sistema impossível de enfrentar porque nunca existe um único responsável.

É por isso que À Queima Roupa continua parecendo tão moderno quase seis décadas depois. O dinheiro funciona como impulso inicial da narrativa, mas aos poucos percebemos que a busca de Walker já não diz respeito ao valor que lhe foi roubado — e sim à tentativa de recuperar uma lógica de mundo que deixou de existir. Quando ele retorna a Alcatraz no desfecho, a sensação é de que finalmente compreende isso. Sua luta nunca foi por aqueles US$ 93 mil. Era contra um sistema que jamais poderia derrotar.

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