“Backrooms” transforma um fenômeno da internet em terror existencial

Até assistir a Backrooms: Um Não-Lugar, filme de estreia do jovem diretor Kane Parsons, eu nunca tinha ouvido falar desse fenômeno da internet. Confesso que o fascínio por corredores infinitos e espaços abandonados me parece, agora que andei pesquisando sobre o tema, difícil de compreender.

Mas tudo bem. Apesar de ter visto a internet nascer, não pertenço à primeira geração verdadeiramente digital. E isso faz diferença. Existem fenômenos que parecem fazer sentido apenas para quem cresceu dentro deles. O que, definitivamente, não é o meu caso.

Com isso em mente, sentir-se confuso assistindo a Backrooms faz parte da experiência. E também da recompensa. A atmosfera criada por Parsons é particularmente revigorante. Conceitualmente estranho em vários aspectos, o filme tem momentos que evocam diretamente David Lynch, sobretudo pela maneira como desmonta nossa percepção do espaço e da realidade. Backrooms é um mundo vazio que, ainda assim, nos devolve às emoções e frustrações que nos tornam humanos.

Inicialmente, Backrooms parece emular A Bruxa de Blair, com a perspectiva centrada no ponto de vista do personagem e uma câmera que, logo nas primeiras cenas, provoca uma sensação constante de claustrofobia. Aos poucos, porém, a trama apresenta Clark (Chiwetel Ejiofor), um arquiteto que misteriosamente atravessa a parede de sua loja de móveis e se depara com um universo imenso, banhado em amarelo. Como uma espécie de Alice atravessando o espelho, ele compartilha a descoberta com sua terapeuta, Mary (Renate Reinsve), que acaba sendo tragada pelo mesmo lugar depois, quando recebe um áudio misterioso e preocupante de Clark.

O cenário de Backrooms é completamente vazio de pessoas, mas transborda memórias. Há máquinas de lavar, árvores de Natal, cadeiras, mesas e todo tipo de objeto espalhado por corredores intermináveis. Nesse sentido, o trabalho de Danny Vermette no design de produção merece destaque. Às vezes, esse cenário funciona como uma extensão das lembranças e dos traumas dos personagens. Em outras, parece representar o próprio labirinto da mente humana.

Um terror que não precisa de violência gratuita

É justamente aí que o filme encontra sua identidade.

Backrooms não é um terror construído sobre sustos fáceis ou violência gráfica. Sua força está na atmosfera lenta e silenciosa que acompanha os personagens enquanto eles exploram aquele espaço sem fim, como se o próprio filme também estivesse tentando compreendê-lo.

Se A Origem, de Christopher Nolan, utilizava os sonhos para explorar os mecanismos da mente, Backrooms segue pelo caminho oposto. Kane Parsons nunca parece interessado em explicar seus mistérios. Pelo contrário: faz deles o próprio sentido da experiência. Cada resposta conduz a uma nova pergunta, e a narrativa funciona justamente porque aceita conviver com essa ambiguidade, ainda que em alguns momentos ela nos afaste emocionalmente da história.

Parsons parece compreender que a angústia dos backrooms não nasce do que existe naqueles corredores, mas da ausência de qualquer resposta. Do vazio e da sensação de caminhar por um espaço que não pede nada, não significa nada e simplesmente continua existindo – diferentemente de nós, humanos, que tentamos pensar e buscar significado para tudo (não por acaso os personagens principais são um civil e uma terapeuta).

No fim, continuo sem entender completamente o fascínio que esse fenômeno desperta em tanta gente. Mas talvez essa nem seja a questão. Saí da sessão com a sensação de ter compreendido alguma coisa sobre ele — não pela lógica, e sim pelo desconforto. Não é necessariamente preciso ter nascido digital para reconhecer a solidão de um lugar que não é lugar nenhum. Basta entender que, diante de um labirinto sem saída aparente, continuamos procurando algum sentido para seguir em frente, mesmo que seja para simplesmente escapar dali.

Backrooms: Um Não-Lugar (Backrooms, 2026)

Backrooms: Um Não-Lugar (Backrooms, 2026)
3 5 0 1
Direção: Kane Parsons • Roteiro: Will Soodik • Elenco: Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Mark Duplass, Finn Bennett, Lukita Maxwell • Disponível: Aluguel nas plataformas digitais • Duração: 110 minutos
Direção: Kane Parsons • Roteiro: Will Soodik • Elenco: Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Mark Duplass, Finn Bennett, Lukita Maxwell • Disponível: Aluguel nas plataformas digitais • Duração: 110 minutos
3,0 rating
3/5
Total Score

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *