Há um momento em Dia D, logo depois de uma sequência um tanto piegas dirigida por Steven Spielberg, em que Daniel Kellner (Josh O’Connor), ainda assustado com o que acabou de testemunhar, diz: “eu não entendo o que está acontecendo”. Foi exatamente a minha reação no mesmo instante — nem eu, Daniel. O que estamos fazendo aqui, gastando horas do nosso dia com esse filme?
A trama começa sem qualquer explicação. Somos jogados no meio de uma história que envolve a Wardex, uma agência do governo comandada por Noah Scanlon (Colin Firth). Logo na abertura, descobrimos que Scanlon sequestrou Jane (Eve Hewson) para pressionar o namorado dela, Daniel, a não cometer um ato que ainda não fica claro.
Aos poucos, entendemos quem é Kellner. Especialista em cibersegurança, ele já cumpriu pena por crimes cibernéticos e, na Wardex, integrava a divisão responsável por guardar provas confidenciais de fenômenos não identificados registrados na Terra. Convencido de que o mundo merece conhecer esse conteúdo, Daniel decide vazar os arquivos — e se torna alvo da própria agência, que passa a caçá-lo junto a outros ex-funcionários insatisfeitos, todos influenciados por Hugo (Colman Domingo).
É um quebra-cabeça que o roteirista David Koepp joga no colo do espectador, deixando por conta dele juntar as peças e se engajar com a história. No meio disso está Margaret Fairchild (Emily Blunt, em uma atuação que segura boa parte da emoção e da moralidade do filme), apresentadora de previsão do tempo numa emissora local de Kansas City que começa a notar mudanças fora do comum nela mesma.
Nesse ponto — e desde o início, na verdade — Dia D entrega o entretenimento esperado: perseguições, caos, cenas de ação bem construídas. É nesses momentos que Spielberg lembra por que segue sendo um dos grandes diretores do seu tempo. Só que boa direção e coreografias bem filmadas não bastam para segurar um roteiro exagerado e, em vários pontos, confuso — uma trama que parece à deriva, sem nunca decidir de fato para onde quer ir.
Quando o roteiro não acompanha o diretor
A decepção é quase inevitável. Não apenas por se tratar de um filme de Spielberg, mas porque sua ficção científica sempre soube equilibrar o entretenimento que prende os olhos na tela — como em E.T. — com dilemas morais e alegorias sobre o mundo em que vivemos, como em Minority Report e Inteligência Artificial. Em Dia D, Spielberg parece não ter conseguido traduzir o roteiro de Koepp — ou o contrário. A expectativa de ver o diretor de volta ao gênero que tanto o fascina esbarra numa mistura de espionagem, perseguição e ficção científica que simplesmente não se sustenta.
O apelo moral do filme ganha mais força no terceiro ato, ainda que Spielberg recorra outra vez a um sentimentalismo que beira o constrangimento — lembrei da sequência final de The Post, quando acompanhamos o processo daquela capa de jornal que mudaria a história americana sobre o Pentagon Papers. Ainda assim, levo o convite a sério. O problema é o exagero: numa cena, uma emissora recebe os documentos sigilosos e, no calor do momento, decide compartilhá-los com toda a imprensa mundial de imediato. Celebro a mensagem de união do jornalismo, ainda mais em tempos sombrios de perseguição como os que vivemos, mas o tom inflado pesa contra a narrativa.
E é uma pena, porque esse apelo tem fundamento. Nesses tempos cínicos — ou, parafraseando o ótimo O Agente Secreto, de pura má vontade —, parar para ouvir o outro é um gesto de bondade e empatia que anda faltando à humanidade. Talvez, como sugere Spielberg, possamos reaprender isso com outras espécies que (talvez) dividem o planeta conosco.
O problema é que Dia D tropeça justamente onde deveria ser mais cuidadoso. Ao mostrar a reação do público à revelação dos dados sigilosos, o filme cria a Irmã Maura (Elizabeth Marvel), uma freira com uma visão da Igreja tão progressista sobre o tema que soa quase implausível. E ela não é exceção: são personagens e situações assim, construídos para dar conta da mensagem em vez de sustentar a própria lógica, que tornam Dia D um filme distante. Eu queria mesmo gostar dele, e via com boa vontade várias de suas escolhas. Mas boas intenções, do início ao fim, não foram suficientes para me aproximar.


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