“Brazil 70” leva o espectador para dentro da campanha do tricampeonato

brazil 70

Já foram produzidos inúmeros filmes, séries e documentários sobre a campanha da seleção brasileira rumo ao tricampeonato na Copa do Mundo de 1970, disputada no México. Estão na memória coletiva dos brasileiros alguns dos lances mais famosos da história do futebol: a tentativa de gol do meio-campo de Pelé, o drible sem tocar na bola diante do goleiro uruguaio e os gols de Carlos Alberto Torres, Jairzinho, Rivelino e tantos outros jogadores que ajudaram a construir a imagem daquela equipe considerada por muitos a maior seleção de todos os tempos.

Por isso, parecia difícil recriar momentos tão conhecidos sem que tudo soasse apenas como uma imitação do que já vimos tantas vezes. Mas Brazil 70: A Terceira Estrela, série brasileira da Netflix, encontra uma solução inteligente para esse desafio. Sob direção de Paulo Morelli e Pedro Morelli, as partidas são reconstruídas a partir do ponto de vista dos próprios jogadores. A câmera acompanha a ação como se estivéssemos dentro de campo, aproximando o espectador daqueles momentos históricos de uma forma raramente vista em produções sobre futebol.

Muito além das quatro linhas

Mas o maior acerto da série está fora do gramado.

A produção acompanha personagens centrais daquela seleção, como Pelé (Lucas Agrícola), Jairzinho (Gui Ferraz) e Tostão (Ravel Andrade), para mostrar que o caminho até o tricampeonato esteve longe de ser tão harmonioso quanto a memória popular costuma sugerir. Por trás da campanha vitoriosa existiam disputas internas, divergências e pressões que raramente aparecem quando a história é contada apenas pelos resultados.

O sucesso esportivo também acontecia em meio ao período mais duro da ditadura militar. João Saldanha (Rodrigo Santoro), jornalista e técnico da seleção até pouco antes do início da Copa, surge como uma das figuras mais interessantes da narrativa. Conhecido por seu posicionamento político, Saldanha não se curvava às pressões do regime e se tornou um personagem incômodo para aqueles que desejavam transformar o futebol em instrumento de propaganda.

Após sua demissão, Mário Zagallo (Bruno Mazzeo) assume o comando da equipe e precisa conquistar a confiança de um elenco que o enxerga com desconfiança. A série explora bem essa transição, mostrando como as disputas políticas e esportivas se misturavam nos bastidores da seleção.

É nesse equilíbrio entre futebol e contexto histórico que Brazil 70 encontra sua força. A série demonstra paixão pelo esporte, mas entende que aquela conquista não pode ser analisada isoladamente. O tricampeonato ajudou a construir um dos capítulos mais importantes da história do futebol brasileiro, mas também aconteceu em um país marcado pela censura, pela repressão e por disputas políticas que atravessavam até mesmo o vestiário da seleção.

Sabendo que o resultado já faz parte da memória coletiva do país, a produção não tenta criar suspense em torno dos jogos. Em vez disso, concentra seus esforços em humanizar aqueles personagens antes que se transformassem em mitos. Talvez seja justamente por isso que a série funcione tão bem: mais do que revisitar uma campanha histórica, ela nos lembra que, antes de virarem lendas, aqueles jogadores eram apenas pessoas tentando lidar com a pressão de representar um país inteiro dentro e fora de campo.

Brasil 70: A Terceira Estrela (Netflix)

Brasil 70: A Terceira Estrela (Netflix)
4 5 0 1
4,0 rating
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