Cannes 2026 talvez não tenha sido o festival das unanimidades, mas foi o festival das buscas. Entre thrillers melancólicos sobre o sonho americano, experimentos de ficção científica e dramas contemplativos sobre cuidado, morte e conexão humana, a seleção deste ano reforçou uma sensação curiosa: em meio ao excesso de conteúdo e à fragmentação provocada pelo streaming, o cinema de autor continua procurando novas formas de permanecer relevante — e Cannes ainda é o principal palco dessa tentativa.
Os vencedores de Cannes 2026 ajudam a consolidar essa percepção. Em um ano marcado por filmes melancólicos, experimentais e profundamente autorais, o festival pareceu menos preocupado em encontrar “o próximo fenômeno” e mais interessado em reafirmar o valor de um cinema paciente, arriscado e pessoal.
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É claro que isso não nasce apenas de um desejo do próprio festival, mas também da conjuntura atual do mercado cinematográfico. Thierry Frémaux, diretor do Festival de Cannes, esperou até o último momento por Dia D, novo filme de Steven Spielberg, na tentativa de atrair uma atenção maior para uma edição marcada pela ausência de grandes estrelas e superproduções. Mas a decisão da Universal de não utilizar Cannes como ponto de partida da divulgação do longa mudou completamente a percepção que o festival tentava construir para a indústria.
Cannes 2026: quem saiu vitorioso
O grande vencedor da Palma de Ouro foi Fjord, drama norueguês dirigido por Cristian Mungiu e estrelado por Renate Reinsve e Sebastian Stan. O filme acompanha um casal de fundamentalistas que deixa a Romênia rumo à Noruega e acaba enfrentando uma forma progressista de perseguição.
Com isso, Mungiu conquista sua segunda Palma de Ouro — a primeira veio em 2007, com 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias. E ele não foi o único cineasta premiado novamente em Cannes. Pawel Pawlikowski, que já havia vencido o prêmio de Direção por Cold War em 2018, repetiu o feito agora com Fatherland, dividindo o prêmio com “Los Javis” — Javier Calvo e Javier Ambrossi — diretores do drama espanhol The Black Ball (La Bola Negra).
Outros filmes também dominaram as conversas ao longo dos quinze dias de festival. É o caso de All of a Sudden, de Ryusuke Hamaguchi, que segue o lado mais contemplativo da seleção deste ano; Paper Tiger, novo longa de James Gray, aguardado por Cannes até o último instante para integrar a competição; e Minotaur, filme que marca o retorno do diretor russo Andrey Zvyagintsev após quase morrer de complicações relacionadas à COVID-19 em 2021.
Também vale destacar o sul-coreano Hope, de Na Hong-jin, talvez o exemplo mais perfeito da atmosfera desta edição. O longa dividiu opiniões de maneira radical entre aqueles que o consideraram brilhante e outros que simplesmente o rejeitaram por completo. E talvez seja justamente isso que melhor defina Cannes 2026: uma seleção sem favoritos absolutos, mas repleta de filmes capazes de provocar debates intensos entre críticos, jornalistas e profissionais da indústria.
Quais filmes queremos assistir
Boa parte das produções mais aguardadas já apareceu ao longo deste texto. Mas outros títulos também merecem atenção, mesmo sem terem saído premiados.
É o caso de Natal Amargo, novo filme de Pedro Almodóvar. O longa recebeu ótima recepção da crítica, ainda que insuficiente para entrar na premiação principal. A boa notícia é que ele estreia nos cinemas já no dia 28 de maio.
Outro destaque da Competição foi The Man I Love, bastante comentado pela performance de Rami Malek como um artista performático vivendo com AIDS no retrato sensível e doloroso que Ira Sachs constrói sobre arte, desejo, amor e mortalidade na Nova York dos anos 1980.
Já na Un Certain Regard, mostra paralela do festival, alguns filmes também chamaram atenção. É o caso de Ben’Imana, estreia de Marie-Clémentine Dusabejambo — primeiro longa dirigido por uma cineasta ruandesa a integrar a seleção oficial de Cannes — descrito como um retrato íntimo e devastador do acerto de contas de uma nação com o próprio passado.
Outro título bastante comentado foi Teenage Sex and Death at Camp Miasma, dirigido por Jane Schoenbrun (I Saw the TV Glow), em que Hannah Einbinder interpreta uma cineasta em ascensão em uma jornada sangrenta de autodescoberta ao lado de uma atriz quase esquecida, vivida por Gillian Anderson.
Talvez a edição desse ano de Cannes não tenha produzido um vencedor consensual ou um filme capaz de dominar sozinho a conversa cultural. Mas, em compensação, reafirmou algo que o festival parece defender cada vez mais: em um momento em que o cinema disputa atenção com algoritmos, plataformas e excesso de conteúdo, ainda existe espaço para filmes estranhos, contemplativos, divisivos e pessoais. Essa disposição para o risco continua fazendo de Cannes o centro do debate cinematográfico mundial.


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